Mulher
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| José Santa Bárbara |
Eu não encontro qualidades morais masculinas ou femininas, penso que as
diferenças se encontram mais no plano da sensibilidade. Ao homem falta em geral
algo a que chamamos sensibilidade. Eu não falo da emoção ou da lágrima fácil,
mas desse modo sensível de entender o mundo que é o da mulher, como a vejo e
ponho nos meus livros. A realidade chega à mulher por outras vias que não a da
razão. Como a do sentido da maternidade, ela dá-lhe outra dimensão, que o homem
não pode ter.Nós usamos as palavras, mas não sabemos a que correspondem. Eu falo de
maternidade, mas o que é que um homem sabe da maternidade? Essa palavra só pode
ser entendida quando dita por uma mulher-mãe, se eu a disser, não é a mesma
coisa.
Fernando
Gómez Aguilera (2021). José Saramago, nas suas palavras. Porto: Porto Editora.
(p. 365)
Essa senhora [Blimunda] fez-se a si própria. Nunca a projetei para ser
ass
im ou assim …. Foi no processo da escrita que a personagem se foi formando.
E ela surge, surgiu-me com uma força
que, a partir de certa altura, me limitei a … acompanhar. Aquele
sentimento pleno da personagem que se faz a si mesma é a Blimunda. Mas, é
curioso, só no fim me apercebi de que tinha escrito uma história de amor sem
palavras de amor ... Eles, o Baltazar e a Blimunda, não precisavam de as dizer
… E no entanto, o leitor percebe que aquele é um amor de entranhas … Julgo que
isso resulta da personagem feminina. É ela que impõe as regras do jogo….
Porquê? Porque é assim na vida … A mulher é o motor de o homem. Se você vir, os
meus personagens masculinos são mais débeis, são homens que têm dívidas, são
personagens masculinos com complexos. As
mulheres não.
Fernando
Gómez Aguilera (2021). José Saramago, nas suas palavras. Porto: Porto Editora.
(p. 366)